quinta-feira, 10 de abril de 2008

REVERBERAS DE SOFIA (zocha)

http://www.thousands.com/


(Carroção do Tempo (dos polacos))


Quando a tarde cai e as cortinas decem,

pelos deuses, ainda ouço a voz nostálgica

daquele auto falante sonolento

da sociedade Guaíra, anunciando a

chegada e o começo do fim do mundo,

a festa de domingo, a geada de segunda,

a missa bizantina!

A rua Alagoas levanta a poeira cascalhada,

dona Emília acaba de batizar o recém-nascido

e agora está comadre de minha mãe,

mas, quando cai a tarde também cai a vida,

e Odete sua filha moça,

de pernas branquelas e grossas,

com sua bicicleta azul chegará

da fábrica da Linhagem

onde é operária.

Todos os dias leva marmita

no bagageiro da bicicleta

e a noite já pode experimentar

os mistérios do amor...

Paulinho, seu irmão,

espreita-me quando passo,

finjo que não o vejo, não quero saber dele,

oculta-se sempre sob a pérgula de heras e musgos

daquele macabro portão de madeira,

parece uma estátua mórbida

numa cripta medieval,

com suas imensas orelhas de abano,

ouvindo a acústica do mundo!

Não entenderei nunca o destino de Odete,

não entenderei nunca o destino de Paulinho.

Odete se casará de véu e grinalda,

Paulinho será ceifado aos vinte e um anos,

sua mãe se guardará na loucura,

continuará morando no mesmo lugar

e eu mudarei de endereço para pegar o ônibus

e ir pro colégio das freiras...

O muro de Berlim continuará erguido

e mesmo depois de caído ainda assim

não entenderei o destino,

e na Faculdade de Direito,

voce me beijará com seu sorriso

nas escadarias, na praça Santos Andrade,

enquanto o morno sol de inverno

derreterá a geada,

por entre as araucárias...

3 comentários:

Célia de Lima disse...

Oi, Lilian!:-) Bom dia! Estava no blog do nosso amigo Eder e vi seu comentário. Sou fã dessa sua palavra encantada, rítmica, fluente. Vc e Lucia são duas expressões admiráveis do meu tempo, e de que me orgulho de poder acompanhar. Beijos. Bom domingo!

eder ribeiro disse...

As pontes que ligam o poeta do seu passado ao futuro são suas reminiscências, e elas são, tristes ou alegres, essencialmente divinas por estar sempre lá escondida em algum canto de sua alma para um dia ganhar vida. Aplaudo-te emocionado. Bjos.

Kagahn disse...

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