quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sofia Versus/Zocha/No Jardim


O vento corta o pão entre os lençóis

um olor se esvai

há pétalas morrendo no jardim das reticências

há mudas eloqüências na boca da argila

Mas quando escurece os teus versos acendem

e não há espetáculo maior

do que quando caminhas descalço...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

CENTEIOS




Deixa que eu te ame em olor e remoinhos

permita que eu te ame entre névoas e espinhos

faz frio e a cidade vai adormecer no meu colo

o mistério vai decerrar as portas da hora

os musgos crescerão eremitas a lamber os muros

mas os crepúsculos agora se guardam

deixa que eu te ame

nesta pequenez de substancia amante

desse elixir que agora bebo

da tua saudade que me devora

Os céus guardam os seus centeios

e o pão se faz ceia entre os lençóis

terça-feira, 30 de junho de 2009

DEIXA QUE A CHUVA LAVE O MEU ROSTO


Eu preciso de ti

eu preciso me banhar

naquela poça d'água pura

que espelha o céu da minha argila

e o pássaro de minha alma nela se banha

Deixa que a chuva transborde

as conchas do meu entardecer

que preencha todos os beirais vazios

que anseiam pela cálida luz da manhã

quando as rendas da aurora

dos teus olhos se abrem

e o cheiro de café

envolve em volúpia

o sabor da minha grinalda

permita ainda

que a chuva lhe conte estórias

por onde passou

dos pés de quem lavou

dos rastros que escondeu

dos pecados que perdoou...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

MI LOT


LOT






tradução para o espanhol pelo poeta JUAN JAIME MARTIN RUIZ






Não sei como cozer a primeira letra

nem desfiar a última meu tecido de nuvens

urde pregos em meus olhos

não te encontro em lugar algum

As sombras escrevem pelo avesso

as borboletas singram suas metáforas

suas águas de manhãs frias e gris

A minha retina decompõe a palheta

já se desmancham os fios das minhas letras

e o grão e o pão cheiram a mofo

Em mil e um dardos essas pedras de sal esculpem-me.

Quão bela é essa tua estrada meu Lot!




LOT

No sé como cocer la primera letra

ni deshilar la última

mi tejido de nubes urde clavos en mis ojos

no te encuentro en lugar alguno

Las sombras escriben por el reverso

las mariposas singlan sus metáforas

sus aguas de mañanas frías y gris

mi retina descompone la paleta

ya se deshacen los hilos de mis letras

y el grano y el pan huelen a moho

En mil y un dardos esas piedras de sal me esculpen

¡cuán bella es ésa tu senda mi Lot!


segunda-feira, 8 de junho de 2009

OLHO NO OLHO




Olho no olho

a_pesar a minha não compreensão

meus olhos d'água enchem a cisterna!

sábado, 9 de maio de 2009

AQUELES PÃES DE SOL

Millet


(...para minha mãe que amava e cultivava as margaridas) releitura poética


Aquelas mãos pequeninas

debulhavam os grãos

e misturavam a dor e a farinha de trigo

o óleo o sol a água o fermento o colo

o unguento...

Algumas horas deitavam a massa

dentro da suave concavidade do berço

e recoberta por um singelo véu

de algodão alvejado

meu olhar também ali

cingia-se na expectativa do repouso

Horas depois do longo sono

suas mãos coreografavam

a flexibilidade dos grãos

e da massa que lentamente

assumia a forma aos seus toques

Pães de sol cheiravam do forno quente

e recobertos pelos mesmo véu branco

impregnavam de ternura a minha vida

os espaços das minhas formas

e impregnam a minha saudade...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

ETER_NO FOGO/LÍRICAS DE UM EVANGELHO INSANO

Rembrandt




Desde ontem quando a arca emergiu das águas

e salvou as vozes da eternidade

que habitam a concha da minha lâmpada

queimam meus rios em chamas

além das vestes da minhas ramas

com seus tufões que me despem

e assim desnudas gritam teu nome no labirinto

quando te chamo
que o amor arde em outra língua

além da palavra!