sexta-feira, 10 de abril de 2009

UM PENTAGRAMA PASCAL

pintura/em madeira/Séc.VI D.C./
retrato/Cristo ao lado do superior Mená/mosteiro em Baouit/Moyenne Egypte
Museu do Louvre/Paris/FR



FELIZ PÁSCOA!



Quando o vento sopra as estrelas
tudo o que se guarda
se move
pois quem traçou o caminho dos ventos
dos turbilhões
também deixou escrito o das estrelas
e um pentagrama de gaivotas...
e quem está em cima
também embaixo está
Desde a primeira pedra te espero
à beira do rio onde nasce o milho
lá onde se pescam os peixes de sangue e jade
e a aurora esparge o pólen
A pedra foi revolvida!
Vem!

domingo, 5 de abril de 2009

SOB OS OLHOS DO POEMA/NO JARDIM DE SOFIA (zocha)




... leve-se mil anos a abrirem-se as páginas

ainda assim ameiado frente e verso

vidas o meu poema

Te carrego minha estrofe pela cidade nua

pelas esquinas derretidas do meu tempo

na luz do pavio da minha arca cinzelada

te sopro sob o gume da lua com sua luz prateada

que corta o céu e a terra

e te esparrama pelas minhas estradas

Ainda que a noite me queime teus lírios

não te desnudará de mim sabor de meus pães...

sábado, 21 de março de 2009

O TORNO ENTORNO/NO JARDIM DE SOFIA (zocha)

imagem/mnemosyne





Direito e avesso

lume que evapora dos teus olhos

essa linha divisória nunca divide

O torno entorno da massa me argila

Sou a eflúvea entrega da fiação

que te escreve nos vitrais da meação

a própria sílaba calcinada

no ritual de lava-pés sempre inacabado

Sou o teu lado nunca exposto

o beijo oculto que te respira

frente e verso em tua folha de rosto

sangue misturado

de ermidas longínquas

de coiotes silvados de cerrados capões

de trevas famintas de gargantas alquebradas

meu sangue verte-te ponto sideral

nestes cabelos de milho outrora verdes

em nuanças de trigais maturados

espigas debulham grãos calcinamem

pedras lavradas sulcadas pelas tuas águas

que te lava o corpo meu corpo entalhado no teu

vértice das mesmas horas cocção do mesmo breu

entre os anéis dos meus cabelos

em filigranas dores

anelos caligramam partículas

páginas dos teus!

quarta-feira, 11 de março de 2009

UM PÉ DE POEMA





Vou plantar um pé de poema

já esterquei a cova

fiz desova com minha pena

já arregacei os baldes da manga

fiz descarrego das veias

assim planto esse pé de poema no canteiro do agora

crivo nos cravos dos olhos meus

Bordarei sem palavras esses teus umbigos

adejarei borboletas além da barriga desta aldeia

Já reguei das bilhas borrifei as calhas com água benta

nas asas do verso o ácido da placenta

a terra te bebe o córrego

fio d'água escorre eternidade!

segunda-feira, 9 de março de 2009

SALMO APÓCRIFO/NO JARDIM DE SOFIA (zocha)





A tua luz hachura os meus sentidos

O meu corpo fragmento busca tuas eternidades

Entre um vale e outro lançam-se as vestes

e as minhas asas pousam-te os lábios

Suave roçar da minha pele respinga

os lençóis do tempo da tua argamassa

As nuvens escrevem além do que o vento traça

Selada liturgia!

terça-feira, 3 de março de 2009

SÓ UM CANTO

pintura/Khalil Gibran



Só um canto e a luz acorda

a orgia celeste recomeça

em minha alma agreste

tu és a carne do meu sonho

o espaço a pausa a laceração

desse anjo demônio

dessa lousa ferida

entre essas cordas que plangem

toco-te ainda vestal

com minha saliva de vinhas

no calabouço dessa pedra sangrada

em veneno e loucura

a tua pele rasga o sal

da ancestralidade da minha!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ESPUMA E SOMBRA

desenho/da Vinci/Museu do Louvre/Paris


De onde vens palavra minha?!

Para onde vais?!...

Espuma e sombra sob os véus

reluzes e sombreias a minha prancha

doce é o enlevo do teu beijo

e formosa a composição de tuas formas

De incenso é a tintura de teus sons

mas a sombra não descalça os teus pés

nem o plasma de tua boca

nem este enredo da asa de teu verso

Mas meiada de teu rochedo em meu sonho

e plasma aceso em mim neste vaso

me alcovas com tua luz e me exparges...

Ainda ontem te colhi flor

do meu sal!