quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DOS TEUS PASSOS QUE OUÇO E ME DECANTAM








Sob o teclado da escuridão
as notas da tua imensidão
dos teus passos que ouço
além das cinzas do tempo
eles vergam a fome
da corola desta tua flor incandescente
e decantam em fogo e púrpura
o fôlego das ilusões dos alvéolos meus
A tua ternura floresce
as pedras crispadas
e o beijo silencioso
de tua correnteza acesa
desemboca impetuoso
Canção do meu cântaro
nesta minha boca de argila
rio de minhas fráguas
rio de noturno e soturno teclado meu
de tessituras além das nomenclaturas
Gravitam-me teus ecos
no deserto da minha respiração/
bebo dos teus versos de profundo e silencioso arquejo
além dos poros na forja dos sentidos meus...

domingo, 10 de outubro de 2010

Do verbo da ovelha da ovelha do verbo/releitura






(Líricas de um Evangelho Insano)
(releitura)

Na lã da infância se guarda o eterno
disse um alfabeto ancião sob florido cajado
de encovado sorriso descovado e de
cerne de cabelos de perfumada ausencia
Se perder do rebanho é como cair
da gravidade do poema a árvore
sem fazer-se renascenças
O eterno guarda o pastor nas ovelhas
da árvore
e o rebanho cuida das sementes
mesmo no vento da boca
II
O amor é um verbo de renascenças
soprado debaixo da pedra
levita os sonhos dela
e todo rebanho da janela cega
se Ilumina
III
Mas, amarga o sabor do rebanho e do pé do verbo
quando ficou sem sol sem quarar o poema
e os olhos se encardiram

IV
A lã teima o verbo e esquenta
o gelo da pedra de incenso das nuvens.
rebanhos de sementes na roca fiam
perdidos olores florescem...

sábado, 25 de setembro de 2010

Se eu fosse teu lírio do campo


imagem/Scott Pecks por Berussa





Se eu fosse teu lírio do campo não me perderia como formiga de plástico nessa primavera de olhares sintéticos,
seria testemunha da minha água viva e não deixaria engarrafar-me para satisfazer a sede
amotinada das minhas torres de papel.
Acreditaria na fidelidade e na fecundidade do grão do olhar único e não deitaria nas mansardas em delírios minhas secretas trovas a ti....
Se eu fosse teu lírio do campo/da minha nova pátria/ te amaria até o fim e te acordaria sempre com meu beijo quente em sol maior como este com que me acordaste hoje ao amanhecer...

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sábado, 18 de setembro de 2010

Que fizeste tu com minhas flores?


foto/Nuray Engin

(Antes de Heráclito as águas e as flores já eram de fogo e sangue!)

Que fizeste tu antes e depois do agora?
sopras e apagas e mesmo assim floresces
que fazes tu com essas flores do agora?
deixei-te bilhetes à porta do acaso
escrevi -acasos por bilhetes
escrevi no vaso no vento
escrevi na chuva e fora do tempo
e não me ouviste
então canto para não morrer
canto porque a flor sangra/tenho fome
e é preciso não morrer além das palavras
e mesmo assim só tu és ainda minha ventura
e desventura como diz Borges
Inesgotável e pura!

sábado, 11 de setembro de 2010

COÁGULO


foto/Lilian Lichowski




(Líricas de um Evangelho Insano)


Vivo e vou morrer
nesta floresta arcaica
sem nada saber
sem nada entender sobre a doçura
e o veneno desta flor...
sobre este coágulo que floresce leite!
Se pudesse eu derreteria os ventos
e sangraria em mim
as sílabas das crisálidas
desta dor de tua metáfora...


www.lilianreinhardt.prosaeverso.net

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FLORESCÊNCIA II


imagem de Scott Pecks por Berussa

(Líricas de um Evangelho Insano)

Em tuas secretas pétalas
bebo-te amado meu
contenho em meu corpo as tuas cores do leão
exalto a tua grafia de dragão
e sou tua criatura criada
nas linhas de Altamira alada
em único caligrama
em tua pele a quatro mãos
rés do chão sob tua luz
flutuo flor de tua lava!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ISTO NÃO É UM POEMA PARA MAGRITTE


pintura/Magritte





(Líricas de um Evangelho Insano)



O poema é feito de azeite?
Me gusta levedura natural,
misturo alho com leite,
um céu sem continente, sem novelo, hibernal,
isto não é um poema, não é uma prosa,
não é uma pátria. É uma pátria! E, talvez seja uma rosa!...
Uma coxia, mas, nunca um tribunal!
Ou será um funeral ocidental?!
Talvez um corrimão, uma demão,
um par de tênis deixado no corredor,
um condenado à espera da hora da câmara,
um poema pode ser bem uma tentativa,
uma nova nomenclatura de Marselhesa,
um delírio tremens de existir,
um endosso de Lombroso,
ou um cascalhar de algum grafite pelos riscos,
dos rios, das favelas, deste país sem chão...
de subsistir, de inexistir,
de rumorejar, de ser e retroceder,
de retrilhar os sonidos da contramão.
Um poema talvez nunca tenha a sua hora
do feijão.
Mas, talvez possa pincelar texturas,
com pátinas de gemas de tempo forçado, ainda não vivido,
de amadurecer pomos de amores d'outros coalhados,
no mó do gozo arrendado.
Tudo talvez seja o todo num poema que seja e não seja,
palavras soltas, apenas palavras,
sílabas mal calcinadas,
sinais perdidos na estrada,
só pra soprar bolhas,
de palavras de Hiroshima,
de sabão?!!!!