sábado, 18 de setembro de 2010

Que fizeste tu com minhas flores?


foto/Nuray Engin

(Antes de Heráclito as águas e as flores já eram de fogo e sangue!)

Que fizeste tu antes e depois do agora?
sopras e apagas e mesmo assim floresces
que fazes tu com essas flores do agora?
deixei-te bilhetes à porta do acaso
escrevi -acasos por bilhetes
escrevi no vaso no vento
escrevi na chuva e fora do tempo
e não me ouviste
então canto para não morrer
canto porque a flor sangra/tenho fome
e é preciso não morrer além das palavras
e mesmo assim só tu és ainda minha ventura
e desventura como diz Borges
Inesgotável e pura!

sábado, 11 de setembro de 2010

COÁGULO


foto/Lilian Lichowski




(Líricas de um Evangelho Insano)


Vivo e vou morrer
nesta floresta arcaica
sem nada saber
sem nada entender sobre a doçura
e o veneno desta flor...
sobre este coágulo que floresce leite!
Se pudesse eu derreteria os ventos
e sangraria em mim
as sílabas das crisálidas
desta dor de tua metáfora...


www.lilianreinhardt.prosaeverso.net

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FLORESCÊNCIA II


imagem de Scott Pecks por Berussa

(Líricas de um Evangelho Insano)

Em tuas secretas pétalas
bebo-te amado meu
contenho em meu corpo as tuas cores do leão
exalto a tua grafia de dragão
e sou tua criatura criada
nas linhas de Altamira alada
em único caligrama
em tua pele a quatro mãos
rés do chão sob tua luz
flutuo flor de tua lava!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ISTO NÃO É UM POEMA PARA MAGRITTE


pintura/Magritte





(Líricas de um Evangelho Insano)



O poema é feito de azeite?
Me gusta levedura natural,
misturo alho com leite,
um céu sem continente, sem novelo, hibernal,
isto não é um poema, não é uma prosa,
não é uma pátria. É uma pátria! E, talvez seja uma rosa!...
Uma coxia, mas, nunca um tribunal!
Ou será um funeral ocidental?!
Talvez um corrimão, uma demão,
um par de tênis deixado no corredor,
um condenado à espera da hora da câmara,
um poema pode ser bem uma tentativa,
uma nova nomenclatura de Marselhesa,
um delírio tremens de existir,
um endosso de Lombroso,
ou um cascalhar de algum grafite pelos riscos,
dos rios, das favelas, deste país sem chão...
de subsistir, de inexistir,
de rumorejar, de ser e retroceder,
de retrilhar os sonidos da contramão.
Um poema talvez nunca tenha a sua hora
do feijão.
Mas, talvez possa pincelar texturas,
com pátinas de gemas de tempo forçado, ainda não vivido,
de amadurecer pomos de amores d'outros coalhados,
no mó do gozo arrendado.
Tudo talvez seja o todo num poema que seja e não seja,
palavras soltas, apenas palavras,
sílabas mal calcinadas,
sinais perdidos na estrada,
só pra soprar bolhas,
de palavras de Hiroshima,
de sabão?!!!!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

SOU DO CANTO DA MINHA AVE





Sou do canto da minha ave
sou do canto do meu rio
meu rio ajoelha a hora do crepúsculo
e acende-me as cinzas dos meus frutos
e navego-lhe nos barcos de suas asas
sou terra orvalhada
e só o mistério dele reconhece o silencio
do meu chão!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

OITAVAS



pintura de Alexander Sigov




Ouço canticos que não me veem
mas a tua palavra indecifrável sempre me acompanha
e fazemos solo/

A noite se desnuda
e arranca-me de suas carnes suas fagulhas
e me cospe com suas unhas
com elas dedilho as tuas cordas...

sábado, 14 de agosto de 2010

TINTURA


imagem/Nooraldden Amen


Escorre em linha tinta
esse vinho seco da minha boca
dança sob o lago negro